sexta-feira, 9 de maio de 2014

Religião quando usada como controle: pense nisso.


Por que parece tão delicado abordar o tema Religião? Pelo fato de sermos um país muito religioso e qualquer discussão sobre o assunto gerar polêmica? Tabu? Medo do “inferno” se raciocinarmos sobre o assunto? O leitor percebe que estou generalizando e que não estou distinguindo Religião A ou B ou C?
Há países que fazem ou fizeram do assunto motivo de guerras durante séculos por causa da idéia de que “a minha religião é a certa e não deve ser contestada”. É mais cômodo impor ou aceitar do que retrucar. Por que “o ateu é pecador e não deve ser aceito”? Convive-se com pessoas que não se preocupam com a vida religiosa mas seguem as boas normas de comportamento e respeito que regem as relações nos grupos sociais. Por outro lado, convive-se também com pessoas que não saem das igrejas mas que nos deixam pasmos com a prática de atitudes que nada têm a ver com o comportamento de quem se diz cristão.
Você já percebeu que os países mais corruptos ou mais intransigentes são aqueles que mais praticam as religiões? Pessoas que raciocinam têm o pensamento livre e não são fáceis de serem manipuladas.
Qual é mesmo a definição de pecado além da prática daqueles atos que vão de encontro ao respeito à vida, à honestidade e à segurança dos cidadãos? O que é pecado original? Você ter nascido de um ato sexual? Porque meus pais quando me fizeram amavam-se, concluo que nasci de um ato de amor e, nele, não consigo ver nenhum pecado. Então, eu não carrego o fardo pesado desse pecado original que tentaram incutir na minha mente... Pense.
Quem lê a história das civilizações percebe que a força da religião sempre esteve presente junto aos homens que, para o bem ou para o mal, influenciaram na vida das pessoas. Refiro-me ao controle que os líderes religiosos e políticos exercem no pensamento e no comportamento.
Todos sabemos que, no passado, a Inquisição foi um dos maiores instrumentos desse controle através do medo e da repressão, levando, na maioria das vezes à morte e à desapropriação dos bens da pessoa condenada. E, a maioria inocente, não tinha sequer o direito de conhecer seu delator (que recebia parte dos bens do condenado). A Inquisição era um negócio lucrativo não apenas para a igreja mas, também, para toda a cadeia de inquisidores que se formava beneficiando família dos inquisidores e amigos.
O controle social era mantido através do controle dos atos do povo e até mesmo do pensamento (eu disse “era’?). Pensar diferente do que pensavam os líderes e professar religião diversa eram motivos para o inquisidor submeter o infiel, o herege, ao aparato inquisitorial. Judeus, muçulmanos, ciganos, cientistas, filósofos, etc, todos eram passíveis de passarem pelo crivo inquisitorial. E hoje? Porque pensamos, somos também hereges?

A tradução da Bíblia do Grego para a língua vernácula era considerada motivo para condenar à morte o seu tradutor. Galileu Galilei, acusado de heresia, para escapar da Inquisição em 1611 assinou em Roma um decreto onde declarava que o sistema heliocêntrico de Copérnico (admitido e estudado por Galileu) era apenas uma hipótese. Suas obras foram censuradas e proibidas. Só vinte anos depois deu continuidade a seus estudos. Em Sevilha, na Espanha, o Castelo de San Jorge foi transformado em sede do Tribunal da Inquisição pelos Reis Católicos Isabel e Fernando, e assim permaneceu por mais de 300 anos. Atualmente, abriga o Museu da Inquisição. 

Religião quando usada como controle: pense nisso. Parte II


Muitos mouros, judeus e cristãos protestantes e quem não aceitava os dogmas de uma igreja intolerante e fanática encontraram a morte no Castelo de San Jorge, em Sevilha, na Espanha. Isabel e Fernando, reis da Espanha, são venerados nesse país por haverem unificado o reino ibérico mas, para isso, não hesitaram em perseguir e matar (fato que não se estranha na história das conquistas de território). E denominaram-se “Reis Católicos”... (há de se esperar piedade de quem se denomina assim e não o contrário).
O principal fundamento da Inquisição dos Reis Católicos era exterminar toda pessoa tida como herege, que professava um credo diferente ou que pensasse diferente do regime imposto para não prejudicar a unidade do reino.
Mais recentemente, o fascismo, o nazismo, destruíram famílias e praticaram genocídios contra os que chamavam de dissidentes do regime (para resumir). E não imagine que o movimento difundido por Lutero foi isento disso tudo. Precisa-se ler mais sobre a doutrina desse senhor e pararmos de santificar os líderes.
Como nos dias atuais, a maioria dos líderes nunca teve interesse no esclarecimento do povo. Dominar, de uma forma ou de outra, evita o embate. Ter uma “platéia” que pensa diferente pode ser um risco para quem está em situação de poder. Alguém estranha isto, após os anos de ditadura que vivemos no Brasil?
Por outro lado, a ignorância, o medo, a conveniência e o comodismo das pessoas dão margem para a prática da injustiça, da impunidade e propicia o domínio.
Atualmente, com a Internet, é impossível permanecermos alheios aos acontecimentos. E, se lermos mais um pouco, veremos que será mais difícil sermos enganados. A não ser que o que estiver em vista for o benefício pessoal, uma troca de um voto por um cargo ou por qualquer outro bem. Se é isto o que interessa, o resultado é o que vivemos atualmente em nosso país: corrupção, insegurança e descrédito nas instituições.
Você já percebeu quantos políticos que nem apareciam na igreja para rezar, quando querem se eleger começam a comportar-se como santos e até mudam de religião? Não acredite nessas falsas mudanças.
Observe os comportamentos e reative a sua memória. Seja um daqueles que não se deixam manipular ou enganar todo o tempo. Não acredite em promessas e em líderes que emprestam o púlpito de suas igrejas para o discurso político partidário. Ou esse lugar deixou de ser considerado sagrado e reservado à pregação do evangelho?  Não se misturam o joio e o trigo, especialmente naquelas casas chamadas de Casa de Deus.
Se o seu líder religioso pedir voto para alguém, lembre-se que Jesus não negociou com os mercadores do templo. Ao contrário, expulsou-os do templo.
Seu líder religioso (ou o filho ou a mulher dele) “ganhou” algum cargo público depois que usou você para eleger alguém? Pois saiba que ele é um daqueles mercadores do templo. Não aceite isso. Vote nas próximas eleições com a sua consciência. E pare de trocar o seu voto por benefícios pessoais. Não esqueça o exemplo que tivemos recentemente na liderança de nosso estado e os maus frutos que ainda estão sendo colhidos.

Certa vez, tive dificuldade mas consegui mudar a visão de uma agricultora sobre a sua maneira de escolher um candidato. Ela dizia: não voto no fulano porque ele não vai me dar nada. O que reflete o pensamento da maioria, na realidade. Depois, com o esclarecimento que lhe fiz, felizmente ela compreendeu a importância do voto. 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Mais seriedade para com a natureza.

Artigo publicado no Diariodoamapa.com.br em 02.04.2014

              A calma reinante no espelho de água que se deita diante da casa só é perturbada pelo eco dos gritos das araras que atravessam o rio e pelos cantos e gorjeios dos pássaros. Garças e maguaris cruzam-se no ar procurando peixes. O tapete de mururés que se estende às margens, de um lado e de outro da ponte, lembra a quantidade de poluentes jogados no rio provenientes das fezes dos animais das fazendas existentes. A presença do mururé nos rios e nos lagos é um indicador de poluição das águas. Sua permanência nas margens dos rios diminui a erosão, ajuda a despoluir a água e favorece a reprodução dos peixes. Viveiro permanente em frente às casas quando se pratica a pesca de subsistência. Homem e fauna fluvial, ambos saem ganhando.
O vento que rasga o curso do rio todas as tardes provocando maresias, parece vir das profundas sem pedir passagem silvando mais ameaçador que uma serpente. O invasor joga tudo abaixo no traço de seu percurso. É hora de fechar as portas das casas. Se alguém estiver dentro da mata é prudente procurar abrigo para não ficar à mercê da queda de alguma velha árvore.
As águas do rio começam a subir de nível invadindo o terreno sob as palafitas em conseqüência de suas nascentes serem visitadas constantemente pelas chuvas. O que é bom para todos: pasto, animais e homens. Ainda é hora de colher a bacaba ou o açaí. Quando não chove, a sua presença fresquinha na mesa é garantida. Os colhedores têm receio de subir na árvore molhada e lisa. Os empregados reúnem-se com ou sem os patrões e partem para a mata a cavalo. Ficam torcendo para que os tucanos e as araras não cheguem antes deles nos frutos. Concorrência desleal. Tatus e pacas já saborearam aqueles que caíram aos pés das árvores. O cardápio vai mudar do frango ou do peixe frito ou cozido. Será substituído pelo paladar da mistura de coisa doce com coisa salgada: bacaba ou açaí com açúcar e peixe de salmoura assado na brasa. Restaurante francês conhecido por servir iguarias em pequenas e finas porções com aquele cerimonial peculiar que faz você se sentir como um rei ou uma rainha, o garçon, impassível e ciente de seu métier fazendo os biquinhos que a pronúncia do idioma requer, ou restaurante italiano onde tudo é gritaria e animação com suas massas e molhos, nem pensar. Só a culinária indiana ou árabe, onde em cada caçarola mora um gênio de lâmpada mágica, faz salivar e sonhar num décor típico dos palácios árabes das mil e uma noites transformados em restaurantes.
Nesta terra onde “em se plantando tudo dá”, se Pero Vaz de Caminha houvesse observado mais os animais perceberia que há casos em que nem tudo precisa ser plantado porque a fauna existente encarrega-se naturalmente de semear. Bendita terra das palmeiras!
O que é imprescindível mesmo é que as pessoas se conscientizem que o homem pode e deve viver em harmonia com a natureza, como faziam os povos primitivos.
A partir do momento em que o comércio predatório (desde a colonização portuguesa) e a indústria irrefreável começaram a se expandir, a natureza passou a ser impiedosamente explorada.

As leis de proteção ao meio ambiente são claras. Os indivíduos ou os grupos tendem a não respeitá-las. Toda agressão à natureza contra a flora, contra a fauna, contra o solo, etc, deve ser punida sem tolerância e sem obstáculos ao trabalho daqueles que aplicam a lei. O país investe em campanhas de educação para conscientizar os cidadãos. O que é válido numa primeira fase. Porém, melhor conseqüência traz a aplicação das sanções cabíveis a cada caso. O resultado é positivo quando o estado brasileiro mostra sua força sobre o ato criminal cometido punindo seu autor. Por outro lado, de uma maneira geral, os investimentos locais e nacionais na educação, no pessoal e nos meios para possibilitar a aplicação das leis, aliados à seriedade dos agentes na sua aplicação, constituem indicadores suficientes para acreditar que se está no rumo certo de um futuro melhor para todos.

sábado, 29 de março de 2014

Acordo entre galinhas.

 Publicado no Diariodoamapa.com.br, de 29.03.2014

Há três anos, compramos um galo e várias galinhas de um empregado que foi demitido. Tudo ia muito bem para a criação até que começamos a desconfiar das respostas do novo empregado e de sua mulher quando perguntávamos o que estava causando o sumiço das penosas. Com a peculiar cara de pau das pessoas que mentem os dois colocavam a culpa nas garras poderosas dos gaviões. Percebia-se que não falavam a verdade. Cada vez que vínhamos à fazenda constatávamos que o número de galinhas diminuía. Até que resolvemos colocar outro empregado. Salvamos o que restou das galinhas e mais alguns frangos. E o que restou é o que existe até hoje e mais outro galo. Fora os trinta ovos que o caseiro remplaçant deixou os cachorros comerem, agora temos três ninhadas em andamento com onze recém-nascidos. O gavião comedor de galinhas sumiu junto com o mentiroso.

Certa vez, observando o galo procurar ninho para as galinhas botarem seus ovos notei como o seu ato paternal era sério e cheio de responsabilidades. Coisa que não me passava pela cabeça quando minha mãe criava, na cidade. A galinha procurava um lugar tranqüilo e quando percebia alguém por perto ela saía toda assustada. O galo entrava em ação chamando cocó, cocó e, caminhando na frente da parceira sobre a ponte, experimentava os lugares para ela aninhar. Ora era a horta suspensa, ora era uma prateleira de colocar trecos na casa do caseiro, ora era o fogão a lenha. Em sua linguagem a galinha o seguia ficando exatamente no lugar onde o macho lhe indicara. Achei incrível! Comparei a atitude do galo com a atitude da maioria dos homens e achei graça.

Das galinhas que restam na fazenda existem duas que resolveram chocar seus ovos no mesmo ninho. Separo os ovos e as galinhas, mas no dia seguinte, encontro-as bem juntinhas e os ovos sozinhos no outro ninho. Passo novamente a teimosa para cima de seus ovos, mas ela volta para o aconchego da colega. Não sou especialista no assunto, mas descobri que isso ocorre porque a verdadeira dona do ninho em comum é aquela que transfiro para o outro ninho. A intrusa é a galinha que não mudo de lugar. Questão de posse ou acordo tácito para proteger a ninhada?

Se a finalidade dessa co-propriedade for baseada no instinto protetor dos futuros filhotes, as galinhas passaram à frente do ser humano. Qual a associação humana que dividiria o seu abrigo com outro que não fosse da família visando a proteção da prole?

Quem garante que entre seres aos quais se condicionou chamar de ininteligentes não exista amor? O que percebemos quando observamos os animais faz-nos acreditar o contrário. O que explica a atitude daquele cachorro que, ao não ver mais o seu dono, percorre mil vezes o caminho que antes percorriam juntos, dono e cachorro, farejando e lamentando a sua ausência. Ou a atitude daquele outro cachorro que acompanhou o féretro do seu senhor até ao cemitério e, a partir desse dia, dorme em cima de sua sepultura? Espera por comida? Não! Sente falta de seu amor.

Então, à atitude do galo que zela pelos ovos de sua companheira; à atitude da galinha que cobre enciumada e protetora seus ovos e, depois, os seus pintinhos, não podemos chamar isso também de amor?

A vaca que parte para cima do estranho quando sente alguma ameaça em relação ao seu bezerro, não sente amor pela cria? É instinto de proteção? E nós, humanos, também temos instinto e temos aquele sexto sentido que não falha. Então, onde está o amor que se quer admitir como particularidade apenas do ser humano, do ser inteligente? Onde está o limite entre paixão, amor e instinto? Podemos até ampliar um pouco os questionamentos e perguntar se existe mais amor em determinados seres humanos do que nos animais irracionais?

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A inquilina insólita.

Publicado no Diariodoamapa.com.br em 21.01.2014

Descobri que tenho uma inquilina clandestina quando eu trabalhava um dia qualquer na área de serviço. Levei um susto com a surpresa. A bicha deu um salto e desapareceu no quintal fazendo-me crer que dava adeus para nunca mais voltar. No 1º dia do ano, ao abrir o armário situado sob o tanque de lavar roupas, eu a vi, ali, a me encarar impondo sua presença. Cruzamos novamente os olhares e percebi que aquela criatura havia adotado a minha casa para passar as festas de fim de ano, e estava ficando...estava ficando... Quando tentei juntar a garrafa seca que havia virado, a criatura deu um salto e saiu, pulando para baixo da máquina de lavar roupas. Sem contar que me deixava boquiaberta com tanta destreza em se desembaraçar de minha presença. Cogitei comigo mesma que, a causa de sua mudança para a minha casa só poderia ter duas explicações: ou a criatura habita o poço amazonas que existe no quintal e teria sido inquietada quando mandamos limpá-lo para substituir o bocal por uma tampa reforçada a nível do piso para podermos circular livremente, ou a dita criatura teria vindo entre as nossas coisas de seu habitat natural, na fazenda.
O certo é que, uma perereca sozinha não faz verão.
Então, não se justifica a sua presença solitária no inicio de 2014, dentro de um poço na cidade afastado de áreas de ressaca! Já vai longe o tempo em que convivíamos no centro de Macapá com sapos e cobras. Lembro que, no final dos anos 60, ainda tomávamos banho com sapos dentro do banheiro de madeira da casa de meus pais. Concluí que, sem perceber, trouxemos a pobrezinha na nossa bagagem da beira do rio. Só vejo esta explicação. E agora? Posso esperar encontrar uma cobra também? A lembrança da cadeia alimentar me impõe este receio.

O que fazer então com a perereca? Tentar aprisioná-la e levá-la de volta para a beira do rio, ou tentar combatê-la? Mas, e se ela pertencer àquela espécie de sapos extremamente fatais à vida humana? Não vou correr riscos. Ela invadiu meu território, mas, reconheço que, antes, eu invadi o dela. E agora? Ressuscito a extinta Inquisição? Chamo a polícia? Ou chamo o corpo de bombeiros? Não sou do tipo que tem medo de perereca, nem vou ocupar o aparelho estadual com uma criatura tão inofensiva. Ora, bolas! Sou filha de um ex-caçador. Só espero que ela não atraia a cobra que já deve estar na casa do vizinho. Afinal, talvez eu tenha provocado esta situação. Mas, já bastam as “cobras” que existem no estado. Então: Chô perereca, chô cobra... Mesmo sabendo que a pererequinha pode ser útil para combater mosquitos espero que procure outro endereço. Adianto que não vou cobrar aluguel.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

A necessidade do ser humano de produzir ídolos

Publicado no Diariodoamapa.com.br  em 15.02.2014

 
Produzir ídolos é uma tendência inerente ao ser humano.
Quando crianças, selecionamos nossos ídolos entre os que fazem parte de nosso círculo familiar e entre os heróis de desenho animado ou de algum filme.
Qual o garoto ou garota não fica de boca aberta e olhos vidrados na imagem do Chaves, do Batman, do He-Man, do Tio Patinhas, do Shrek, da Pucca e de outros heróis ou heroínas que embalam os sonhos de cada geração?
Quando começamos a receber as informações religiosas em casa ou na escola, o objeto de nosso culto, o nosso ídolo, será aquele que nossos pais cultuam ou que a professora de religião acha que é bom para nós ou, ainda, aquele que a igreja que nossos pais frequentam já escolheu por nós. Há quem pense que a religião ajuda a educar para incutir bons sentimentos, bons comportamentos, o que é válido quando não se tem o bom exemplo em casa. E, infelizmente, muitas crianças não têm esse bom exemplo pois é a educação recebida no seio familiar que imprime os primeiros traços no caráter.
Já adultos, mesmo que ainda admiremos Batman, Tio Patinhas, etc, temos conhecimento suficiente em outras áreas para expandir nosso círculo de ídolos. No esporte não será diferente. Talvez o futebol comercial, aquele que envolve muito dinheiro, não deva mais ser incluído entre os esportes porque esta categoria de futebol faz é tempo que deixou de ser esporte para ser um “negócio da China”. Mas, vamos lá. Esporte ou negócio, o futebol é cheio de ídolos que se sucedem com uma rapidez incrível.
Na política, nem se fala! Ídolo é o que mais se produz. Basta alguém receber um presente ou ouvir uma falsa promessa de algum político para idolatrá-lo e transformá-lo no “Cara”, no seu ídolo, no homem ou mulher a ser perpetuado no poder. Quantos líderes religiosos ou políticos chegaram ao poder com um patrimônio modesto e, hoje, possuem verdadeiros impérios montados em cima da manipulação das pessoas? Quanta desgraça a idolatria causou na vida das pessoas! Hitler, Mussolini, Stalin, Mao, Kim Jong-il e outros tornaram-se ditadores porque, antes do temor e do terror que causaram foram idolatrados. Empurrados para o poder graças à crise econômica e social interna nos seus países.
Vamos sair da inércia e incentivar o que é bom em vez de continuar a prestar culto a ídolos corruptos e corruptores da dignidade: Qual é o alimento que fortalece a mente e abre os espíritos? A leitura. Quantas bibliotecas públicas já foram criadas aqui no Amapá (antigo Território e atual Estado) ao longo de sua existência? Quantas vagas de Bibliotecário (nível superior), professores de música e professores de arte são ofertadas em concursos públicos? O que é que proporciona ao ser humano o amplo exercício da cidadania? O conhecimento. O que é que desvia o adolescente da marginalidade? Leis e investimentos que disponibilizem meios para que a criança e o jovem descarreguem suas energias no esporte em geral (não apenas futebol!) e descubram as delícias que o aprendizado da música instrumental e as artes proporcionam à alma. Investir no grande potencial de nossa infância e juventude representa, entre outros, uma vida melhor para todos; a diminuição da miséria humana e da insegurança dos cidadãos; a diminuição da clientela carcerária. Mas, nem por isso se deve abrir mão do policiamento ostensivo.

Afinal, aqueles que se apossam do erário público roubam a vida, a segurança e a harmonia das famílias que se formam para dar o melhor para seus membros. Pois que as viúvas e os órfãos da violência, os pais e irmãos das vítimas do descaso amaldiçoem todos aqueles que construíram suas riquezas sobre o choro da miséria deste povo. E que seus filhos joguem isso nas suas caras e a velhice de suas cabeças não descanse em paz no travesseiro.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O espetáculo da vida no rio.

Publicado no Diariodoamapa.com.br em 18.01.2014 As fotos sao minhas.

Foto: Veneide Cherfen

Foto: Veneide Cherfen
Foto: Veneide Cherfen. O peao andarilho.

Foto: Veneide Cherfen
Eu e a canoa.

Sete horas desta manhã de janeiro chuvoso. 25° na beira do rio. No Norte do Brasil, onde a temperatura atinge acima de 30°, uma baixa de 5° faz tirar a roupa mais quente do armário. Tudo tranqüilo na cabeça da ponte. As touças de mururé descem o rio com a vazante para voltarem depois, com a enchente. O boto atrai a atenção com sua magia e beleza fazendo seus mergulhos habituais de pesca. É o terror do pescador quando fura as malhadeiras para atacar os peixes indefesos fazendo-lhes buracos enormes causando duplo prejuízo: um, porque come o alimento que o pescador deveria levar para casa, outro, porque danifica o seu instrumento de sustento. Para as virgens dos vários recantos escondidos da Amazônia, o boto ainda é a desculpa utilizada quando dão com os burros n`água ou, quando desgraçadas pela animália existente em algum próximo, até mesmo da própria família, a barriga começa a crescer. É quando ele se transforma naquele belo homem de olhos azuis vestido de branco e de chapéu na cabeça, que entra nas casas como quem não quer nada, vindo não se sabe de onde mas que, na verdade, vem namorar e engravidar as moças das redondezas. Dizem ainda que, quando ele vai embora deixa um cheiro de pitiú no ambiente e desaparece no ar, ou melhor, na água, sem ser identificado. Só então desconfiam que o intruso era um boto. Aí, é um Deus nos acuda...A boa Maria, que vem de Macapá mas que nasceu e embarrigou a primeira vez na Ilha de Caviana, quando dorme na fazenda fecha todas as venezianas e coloca dentes de alho no sutiã, com medo do boto. Para que a noite se alongue, basta pedir-lhe que conte uma história de boto. Ela solta a língua e repete as lendas de sua terra natal. Entre elas, a história de que uma “buta” deitou-se na rede com o irmão dela e quase o encantou. Os rapazes adoram atiçar a Maria e, no final, todos acabam rindo. Durante o dia, quando a maré sobe, traz consigo os restos de um animal morto que os urubus tentam devorar por cima. Os mururés continuam na sua labuta diária de subir e descer o rio, de acordo com a corrente, sem remar e sem precisar de outro meio de transporte para se locomover a não ser a própria correnteza. No entanto, sabe-se lá que espécies de criaturas levam consigo. Quase se escuta a música silenciosa composta por suas pesadas raízes no atrito das profundezas das águas. O silêncio só é cortado pela canoa que, ao bater na madeira da lancha faz um barulho baixo e ritmado e por um grupo de tetéuas barulhentas que bailam por cima da ponte. Verdadeiro espetáculo. Sem necessidade de ir à Ópera de Paris, de Lyon ou de Douai. Aqui, tem de tudo. O italiano Verdi comporia maravilhas com toda esta riqueza.
No fim da tarde, depois de voltar da roça com os últimos jerimuns e maxixes o empregado remplaçant entra com uma enfiada de acaris e apaiaris pescados ao lado da casa numa rara e agradável surpresa. Depois, vai tomar seu banho no rio e repete o cerimonial habitual para seu passeio noturno. Vai fazer concorrência aos mururés, num descer e subir do rio...remando.

A noite chega depois de um dia chuvoso. Do outro lado do rio, os guaribas gritam chamando as fêmeas. Preparam-se para o encontro. A água continua a descer num vai-e-vem interminável. Os mururés se despedem de nossas vistas para se agarrarem ao primeiro local estável que encontram pelo caminho. Quisera eu poder escorregar como eles sobre as águas!

Aos pais liberais.

Publicado no Diariodoamapa.com.br dia 14.01.2014

Trata-se aqui de uma sugestão de campanha educativa para os órgãos competentes. Os pessimistas dirão que é um sonho. Não importa. Tal campanha, teria como objetivo lembrar aos pais (entre os quais me incluo) o seu papel de orientadores dos filhos e, até mesmo, de controladores, alertando sobre os problemas causados pela liberalidade e, atentando para o fato de que: dar liberdade não é o mesmo que ser liberal. Liberdade é o poder de agir, no seio de uma sociedade organizada, segundo a própria determinação, dentro dos limites impostos por normas definidas. Liberal é aquele que tem idéias ou opiniões avançadas, amplas, tolerantes, livres (Dic. Aurélio). Imprescindível ter cuidado em não cometer exageros na investidura dos adjetivos tolerantes e livres, na educação dos filhos.
Não existe um manual que ensine como criar bem os filhos. Então, que tal relembrar aquelas velhas frases e regras ensinadas na infância e na adolescência de gerações passadas: “Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és; Achou, não é teu, e se achou no quintal do vizinho, pertence ao vizinho; Filho deve dormir em casa e não na casa de colega; Hora certa para chegar em casa; Direção, só depois dos 18 anos, (não apenas por imposição da lei mas, também, porque nesta idade pressupõem-se que o jovem esteja preparado emocional e fisicamente para dirigir um veículo automotor e assumir responsabilidades).” Aos especialistas compete desenvolver o tema.
Parece que alguns pais têm medo de ser arcaicos. O papel dos pais não deve ser confundido. Filho não está em condições de exigir bens materiais dos pais e nem de impor situações. Os pais têm que saber dosar, orientar, ser firmes. Quando necessário, saber impor. Respeito e educação nunca serão cafonas. Não se deve confundir liberdade com libertinagem (desregramento, licenciosidade) e falta de controle.
A televisão é o canal de comunicação que entra em todos os lares. Do mais abastado ao menos desprovido. Serve de companheira e de ama-seca em muitos casos. Transporta o telespectador para um mundo inimaginável de sonhos e fantasias. E é nefasta quando incontrolada. Pode e deve ser usada para educar os pais.
O brasileiro, em geral, lê pouco. Mas todos assistem novela. Nossa sociedade está apodrecendo, e os motivos principais são a falta de educação, a corrupção e o individualismo. Sem falar na isenção total de alguns pais na educação dos filhos. Muitos pais acham que é obrigação da Escola. Mas não é. Cada um cumpre um papel definido na formação de um Ser. O mau comportamento e a falta de respeito de certos jovens têm causado graves conseqüências às famílias amapaenses. Precisa-se consertar muita coisa. Aos homens e mulheres de boa vontade, mãos à obra...


domingo, 9 de fevereiro de 2014

Aventura.

Publicado no Diariodoamapa.com.br em 08.02.2014


“Mas, essa cobrinha é uma surucucu. O novo empregado que limpava ao redor da casa confirma. Sim, dona. Já era esperado que o substituto fosse embora sem fazer a limpeza de praxe. O mato crescia ao redor e o novo casal acabava de ocupar com os dois filhos a casa na beira do igarapé. O pão assava no forno porque a falta de energia estava uma constante nas residências da orla do rio e não permitia que se usasse a máquina de fazer pão. A primeira preocupação da patroa depois que se apresentou a propriedade ao empregado foi a lavagem e o tratamento da caixa de água. Já era tempo. No momento, os bezerros estão presos no curral e só serão soltos de manhã depois da ordenha das mães. O leite vem a caminho e o queijo não vai demorar. A noite anterior correra tranqüila e repousante nos arredores do Município de Amapá depois de duas longas viagens. Três dias antes um vai e vem turístico ensolarado, carro lotado com familiares, saindo de Macapá direto para o Museu a Céu Aberto da Base Aérea do Amapá para, em seguida, seguir até Cachoeira Grande. Uma noite espetacular e, depois do café da manhã seguinte, saiu-se rumo ao Sitio Arqueológico do Rego Grande, em Calçoene, na direção do Cunani. Conforme planejado, o guardião do Stonehenge Brasileiro já aguardava na cidade para servir de guia mais uma vez. Depois da volta para Macapá no domingo uma noite foi suficiente para recuperar o organismo do cansaço da estrada. O retorno àquela região na segunda-feira à tarde foi necessário para fazer a mudança dos novos empregados que aguardavam depois de quinze dias. Aventuras atrás de aventuras, não sobrou disposição para ir à festa do santo local. O sono chegou pesado. Ficar na pousada para dormir cedo foi a decisão acertada. A viagem na manhã da terça-feira para a propriedade rural situada em outra região atravessando estradas arrebentadas, atoleiros e pontes de madeira exigiria mais repouso. Principalmente porque o carro iria carregado com a família de novos caseiros e seus pertences prontos para substituir o empregado remplaçant e contentes com a perspectiva de um emprego fixo com direito ao leite das crianças e a facilidade dos peixes próximo a casa. Na pousada fora servido um suco de goiaba araçá delicioso no café da manhã. Os caroços da goiaba que nos foi presenteada pela proprietária já estão no vaso esperando grelar e ser transplantados. A popa da fruta se transformou em suco. Uma goiaba apenas rendeu um litro de suco. Vale a pena plantar. Parte da horta que antes era habitada por formigas já se havia limpado e, agora, a caseira continuou a limpeza. Brevemente estará pronta para receber os rebentos de couve, pimentão e cebolinha cujas sementes plantei ontem. Sem esquecer a chicória, a alfavaca, o caruru e a pimentinha. Uma bela horta suspensa. Porém, não se deve ter ilusões quanto aos empregados e nem ter medo de mudar quando necessário. O passado serve como experiência; o futuro é incerto, apesar de ter como termômetro o presente. A imagem do piazinho de seis anos vestido de chinezinho azul (fantasia que usou na escola ano passado), usando um chapéu de tecido leve, correndo sem medo com o padrasto atrás dos cavalos no pasto causa um misto de prazer e de temor. O casal educa bem os filhos. Sandálias e sapatos na porta da casa demonstram o respeito pelo trabalho de quem limpa e evita levar a sujeira para dentro da casa. A garrafa de café ofertada voluntariamente para a visita se servir conforme a sua vontade fora uma demonstração de calorosa recepção e desapego. Na maioria das casas brasileiras de gente abastada, atualmente, é quase raro ser recepcionado com alguma bebida. Na casa do pobre sai sempre um cafezinho. Porém, com café ou sem café, o que importa mesmo é um bom papo."

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Peão andarilho

Publicado no Diariodoamapa.com.br de 29.01.014


"A roça é um vício, dona”. Foi a frase que ficou marcada depois da conversa com o empregado para cobrar o resultado de um trabalho que deveria ter sido feito na fazenda antes que as chuvas caíssem para valer. Uma espécie de andarilho que vive entre uma propriedade e outra da orla do rio, sem endereço próprio. Sem eira, nem beira. Uma espécie de roceiro de vida nômade. Se necessário, pode ser caseiro de passagem desde que seja autorizado a tirar um tempo do trabalho na propriedade do patrão pra trabalhar na sua roça.
Uma outra espécie de dor de cabeça para os proprietários. Não se deve exigir muita coisa dele, principalmente se o verão for propício para plantar suas deliciosas melancias. Assim é aquele remplaçant (substituto) que apesar de haver construído muitas cercas e plantado ou limpado muitos pastos fazendas acima, fazendas abaixo, só possui a rede de dormir surrada e a escova de dentes usadas como patrimônio ambulante. Incapaz de repregar uma tábua que seja num tugúrio qualquer que lhe emprestem para abrigar-se, sequer cogita a compra de uma panela de pressão. Usa mesmo é a panela dos patrões que a patroa lhe franqueou ou a panela da mulher de algum amigo. Afinal, nômade como um gitano, para que fazer mais despesas?
Um cinquentão que veio há mais de 30 anos de algum lugar, que já teve família e, que, segundo ele, por interferência da sogra largou a mulher e os dois filhos (ou foi largado) para nunca mais juntar escovas de dentes ou panos de bunda com alguém. Chova ou faça luar, todas as noites dirige-se ao vilarejo mais próximo distante alguns quilômetros do emprego atual dizendo que vai “assistir televisão”.
E lá vai ele neste momento, rio abaixo sob a chuva, remando a canoa dos patrões com um remo quebrado emprestado de algum vizinho para voltar só depois da última novela ou do último beijo na aventura mais recente. Com certeza, hoje vai encontrar alguma dama disponível para dividir o salário que ele acabou de receber. Tais passeios, a favor ou contra a maré, já lhe renderam uma pensão alimentícia e uma noite na cadeia. Coisa que lhe causa mais medo do que as lontras que encontra na orla do rio ameaçando embarcar com ele na velha canoa.
Sua liberdade não tem preço. Trabalhar fixo cuidando de búfalos e de pastos é um grande sacrifício. Toca o gado para o curral com visível má vontade. Maior é a cara feia para ordenhar as vacas. Não pesca, mas é bom para desentocar poraquês, não monta a cavalo, não sobe em açaizeiro e nem em bacabeira.
A horta que estava moribunda morreu de vez e as formigas tomaram conta do canteiro. A simples menção da patroa de não esquecer de dar comida aos cães e às galinhas constitui-se numa afronta para ele. Emprego fixo por mais de três meses, nem pensar. Não se apega, não tem medo, não quer compromisso com segundos e muito menos com terceiros.
Só quer viver o dia a dia esperando a noite cair, na ânsia de sair remando para ouvir lá e tagarelar aqui, e vice-versa. Nunca se viu alguém de conclusão mais ligeira e pensamento mais voraz. Por estas e outras razões, quando não for contratado para construir cercas, o bom mesmo é tê-lo como substituto, joker, curinga, dunga ou melé do trabalho nas fazendas".


Uma coisa que adoro.

Uma coisa que adoro.
No inverno, fica tudo assim. Foto:D.B.

Os lagos

Os lagos
Pegamos nossos remos e varejões e saímos com muito cuidado para não triscar nos jacarés e sucuris. Foto: Veneide