quarta-feira, 14 de maio de 2014

Mentira, trapaça x obtenção de vantagens.

Publicado no Diariodoamapá.com.br, hoje, 14 de maio de 2014.

O cidadão honesto, e pelo mesmo motivo, o cidadão desonesto, têm que estar com a defesa redobrada em relação aos outros. A mentira, faz tempo, está correndo solta para se obter vantagem sobre as pessoas, seja em que ramo de atividade for. Alguns exemplos corriqueiros:
Você vai à farmácia da esquina comprar um anti-séptico X para fazer um curativo. A pessoa atrás do balcão lhe propõe um elemento Y. Confiando na sugestão da vendedora, você aceita. Quando vai fazer o curativo daquele golpe você olha com cuidado a caixa do produto. Só então vai perceber que esqueceu de verificar a data de validade no momento da compra que, no caso concreto, prescreve em dois meses. Você xinga a vendedora, mas já é tarde. Ela está bem distante. Você não está na cidade e precisa com urgência daquele remédio. Resolve tirar o lacre da caixa, mesmo sabendo que não vai ter tanto curativo assim para fazer em dois meses (felizmente, para a sua saúde);
Você encomenda uma canoa do caboclo na beira do rio e recomenda que quer sem branco e sem buraco na madeira. No dia acertado para a entrega vai buscar a canoa no estaleiro do caboclo. A canoa está pronta, amarradinha, aguardando você...dentro da água. Diz a ele para puxar a canoa para a terra para que você possa olhar os baixos dela. Seu marido diz que não precisa. Você se irrita porque não vai dar vazão à sua desconfiança, mas se conforma com a atitude negligente adotada pelo marido. Em casa, colocam a canoa emborcada na varanda para secar, para calafetar e, depois, pintar. Dois dias depois, o vizinho vem fazer uma visita e, olhando os fundos da canoa lhe mostra que está cheia de brancos. Você xinga o marido e telefona para o caboclo, desfazendo o negócio e exigindo devolução imediata do dinheiro pago;
Dias depois, manda fazer uma canoa na cidade e pede uma canoa calafetada e pintada. Quando você sabe que a canoa está em plena fabricação, vai vê-la. Surpresa: a madeira está cheia de broca. Você sobe nos tamancos, não aceita as desculpas e desfaz o negócio imediatamente;
De novo na beira do rio, você encomenda uma determinada madeira. No dia da entrega, se o marido não selecionar, só paga refugo. E o que sobra mata de raiva quando ele constata que não dá para aproveitar mais de dois ou três pedaços. Perdeu seu tempo e seu combustível. Volta apreensivo para casa, de mãos abanando. Você telefona para o madeireiro, dando um prazo para ele devolver o dinheiro que seu marido havia dado como sinal;
Chama alguém para trocar um poste de madeira velha que está ameaçando cair. O homem te enrola durante meses e, quando decide ir, com a maior cara de pau ele te “sugere” como pagamento nada mais, nada menos que um boi. Você o manda para longe e procura outra pessoa;
Você vai com seu marido comprar uma peça para a sua máquina de lavar roupas, mas aguarda no carro. Quando seu marido volta com a peça você percebe que a marca na caixa é diferente. Ele diz que está tudo bem. Quando ele vai trocar a peça da máquina, ela não funciona e ele diz que ela está com arranhões como se tivesse sido usada. Outra vez xinga o marido e diz para ele parar de confiar em qualquer pessoa;
Vocês vão comprar combustível no posto da beira do rio. Sob as ordens do patrão, o vendedor mede o produto dentro de um balde. Ficam atentos, mas de orelha em pé porque o balde do homem é meio esquisito. E como isso provoca a desconfiança de outros compradores vocês decidem que também não comprarão mais dele.
Em casa, você encontra seu açucareiro de plástico dando voltas em torno de si mesmo, como se tivesse entrado no microondas. Você pede explicações da mulher do caseiro, ela diz que não aconteceu nada...Nossa! Como é cansativo lidar com mentirosos e preguiçosos.
Cada vez mais dá-se conta de que nosso povo está tão envolvido com a obtenção fácil de vantagens que a mentira e a trapaça continuam sendo usadas como armas poderosíssimas. E tudo com uma aparente e chocante simplicidade de deixar lerdo o mais desconfiado dos viventes.
As falsas promessas de políticos não passam de mentira; a cara de pau dos mensaleiros que insistem em ludibriar a justiça e o povo; a mulher mentirosa; o marido mentiroso; o comerciante que trapaceia; o vendedor que tenta te enrolar; o colega de trabalho ou teu chefe que esconde os projetos dos outros colegas; a mulher do restaurante que repõe a sobra da mesa na panela; a outra servente que em vez de te servir frango serve ossada de frango. Caramba! Tem-se que estar em estado permanente de defesa e, muitas vezes, correr o risco de cometer algumas injustiças involuntariamente ao se desconfiar até de quem esteja falando a verdade! Pior, não dá nem para se zangar mais ou você vai acabar morrendo de um enfarto. Relaxe...mas não aceite o que não presta.

2 comentários:

Roseane Viana disse...

Esse negócio de mentira ou simplesmente tirar proveito é horrível mesmo. Já passei por situações semelhantes no Brasil.
Seu marido não teve atitude negligente, ele confiou na palavra.
Aqui na Alemanha palavra tem valor.
Bjks

Eu, sem clone disse...

Sim, Roseane. Só que meu marido já havia sido alertado, rsrs. bj

Uma coisa que adoro.

Uma coisa que adoro.
No inverno, fica tudo assim. Foto:D.B.

Os lagos

Os lagos
Pegamos nossos remos e varejões e saímos com muito cuidado para não triscar nos jacarés e sucuris. Foto: Veneide